quarta-feira, 29 de abril de 2015

Notas para uma Psicologia dos Filmes de Terror


Porque algumas pessoas têm fascínio por filmes de terror? Ou, de forma mais técnica, quais os mecanismos psíquicos responsáveis pelo gostar de filmes de terror?

Este tipo de filme tem como premissa incomodar e repugnar quem assiste. Mas, há quê estão associadas as imagens assustadores? Estariam associadas a conteúdos recalcados? Sim, os conteúdos recalcados foram reprimidos por produzirem sentimentos de desprazer. Mas como imagens de desprazer podem atuar a favor do princípio de prazer? Pois ao assistir um filme buscamos o prazer.

O cinema tem como objetivo atingir o imaginário humano e confundir a ficção e realidade. O filme é um veículo da fantasia. Os filmes de terror marcam gerações. As inúmeras noites de pesadelo ficam na memória. Cativam o imaginário da população. A psicanálise tem como objetivo estudar o inconsciente e seus mecanismos. Então, quando assumimos não conhecer o motivo de alguém gostar de filmes de terror, induzimos que seja por motivos inconscientes.

Freud (1919) escreveu um texto de título O Estranho que fala justamente sobre a sensação de estranheza. A Estranheza causa ansiedade. Ao destrincharmos algo assustador, segundo Freud, chegamos a uma estranheza relacionada à fantasia infantil. O gostar está relacionado ao prazer e ao alívio de tensão libidinal. Para Freud, um sentimento de tensão tem de trazer em si o caráter de desprazer (FREUD, 1905, p. 198). 

O sentimento de estranheza compõe o desprazer experimentado pelas pessoas. Os filmes de horror constroem situações e personagens que assustam a maioria dos seus espectadores. Nestes personagens o estímulo aterrorizante está presente como estranheza, mas só será vivido como prazer ou desprazer internamente, pois externamente o estímulo será alienado.

Assistir a um filme de terror, ou vários do gênero, precisa estar relacionado ao estímulo de prazer, à descarga de tensão. Assim, quando o filme incomoda provocamos aumento da tensão libidinal. A pulsão da morte proporciona para a psique incentivo para que o ego se disponha ao desprazer. Proporciona também aumento de tensão. Como no masoquismo, expõe-se a tortura psíquica de postar-se diante do que lhe aflige. Com isso a tensão aumenta. 

Quando o terror ameniza surge uma sensação prazerosa de alívio. Então, se em algum momento a tensão diminui causando prazer, é possível que apareça o desejo de assistir muitos outros filmes do gênero para repetir este prazer que surge quando a tensão diminui.

Rio de Janeiro, abril de 2015
Joana Autran

Abertura

Detalhe do Inferno, parte do tríptico O Jardim das Delícias (1504) de Hieronymus Bosch
Por fim, farto de ansiar pelas cintilantes ruas ao pôr do sol e pelas crípticas estradas que cortavam as colinas por entre telhados ancestrais, e incapaz de afastá-las dos pensamentos, fosse no sono ou na vigília, Carter decidiu aventurar-se onde homem nenhum jamais havia estado e desafiar os gélidos desertos mergulhados na escuridão onde a desconhecida Kadath, envolta em nuvens e coroada por estrelas inimaginadas, abriga secreta e noturna o castelo de ônix dos Grandes Deuses (H. P. Lovecraft, A busca onírica por Kadath).

Um pequeno grupo de amigos regularmente se reúne em certas noites de sábado e vésperas de feriados para conversar, jogar RPG e tomar algumas cervejas. Ao seu redor, jogos de tabuleiros e muitos livros, alguns dos quais realmente antigos, vistos, lidos, tocados, reverenciados. O bate-papo, a princípio não fixado a tema algum, enrosca-se sempre em torno de histórias e estórias de horror e terror, que ouvimos, assistimos no cinema ou na TV, ou mesmo que experimentamos de alguma forma real ou imaginária. Essa frequente experiência, normalmente se encerra com a consideração de algum novo ou antigo filme do gênero, de preferência escolhido entre os menos cotados e menos vistos. Garimpam-se pérolas e porcarias ignoradas e se amanhece a comentá-las.

Na mãos de H. P. Lovecraft e de Stephen King, duas de nossas inspirações e, por assim, dizer, patronos literários, o parágrafo acima poderia se tornar o mote de uma narrativa sobre livros redescobertos, cultos sórdidos, acadêmicos loucos e mistérios ignominiosos. Em nosso cotidiano, entretanto, a repetição dessa experiência, e o prazer e estímulo intelectuais gerados por ela, levou-os à ideia de ampliá-la, transformando-a, dando publicidade e nova consistência na forma de um novo, e ainda informal, instituto de estudos e pesquisas. Porque, afinal de contas, impôs-se a pergunta, não transformar nossos comentários em resenhas, nossas querelas em debates abertos, nossos arrazoados em cursos? Que se juntem a nós aqueles que, como nós, interessam-se pelo fantástico, pelo terrível e pelo horrendo no cinema, na literatura, nas artes e na cultura pop. Que as nossas noites de conversa e nosso círculo de amigos se expanda e, nessa expansão, modifique-se de maneira construtiva, fundando um espaço no qual nos sintamos à vontade para conversar mais ou menos a sério sobre estes nossos objetos de diversão.

Assim sendo, sem mais delongas, dou por publicamente aberto o Instituto Randolph Carter. Em breve aqui teremos novidades de todo o tipo - resenhas de filmes, livros e jogos, anúncios de palestras e cursos, enquetes, discussões de variadas formas, sorteios, entre outras coisas mais. Fiquem atentos e, por favor, puxem seus bancos um pouco mais para perto da fogueira, pois, ao nosso redor, o frio se adensa e as sombras movem-se com obscena rapidez...

Rio de Janeiro, abril de 2015
Alfredo Cruz