quarta-feira, 29 de abril de 2015

Abertura

Detalhe do Inferno, parte do tríptico O Jardim das Delícias (1504) de Hieronymus Bosch
Por fim, farto de ansiar pelas cintilantes ruas ao pôr do sol e pelas crípticas estradas que cortavam as colinas por entre telhados ancestrais, e incapaz de afastá-las dos pensamentos, fosse no sono ou na vigília, Carter decidiu aventurar-se onde homem nenhum jamais havia estado e desafiar os gélidos desertos mergulhados na escuridão onde a desconhecida Kadath, envolta em nuvens e coroada por estrelas inimaginadas, abriga secreta e noturna o castelo de ônix dos Grandes Deuses (H. P. Lovecraft, A busca onírica por Kadath).

Um pequeno grupo de amigos regularmente se reúne em certas noites de sábado e vésperas de feriados para conversar, jogar RPG e tomar algumas cervejas. Ao seu redor, jogos de tabuleiros e muitos livros, alguns dos quais realmente antigos, vistos, lidos, tocados, reverenciados. O bate-papo, a princípio não fixado a tema algum, enrosca-se sempre em torno de histórias e estórias de horror e terror, que ouvimos, assistimos no cinema ou na TV, ou mesmo que experimentamos de alguma forma real ou imaginária. Essa frequente experiência, normalmente se encerra com a consideração de algum novo ou antigo filme do gênero, de preferência escolhido entre os menos cotados e menos vistos. Garimpam-se pérolas e porcarias ignoradas e se amanhece a comentá-las.

Na mãos de H. P. Lovecraft e de Stephen King, duas de nossas inspirações e, por assim, dizer, patronos literários, o parágrafo acima poderia se tornar o mote de uma narrativa sobre livros redescobertos, cultos sórdidos, acadêmicos loucos e mistérios ignominiosos. Em nosso cotidiano, entretanto, a repetição dessa experiência, e o prazer e estímulo intelectuais gerados por ela, levou-os à ideia de ampliá-la, transformando-a, dando publicidade e nova consistência na forma de um novo, e ainda informal, instituto de estudos e pesquisas. Porque, afinal de contas, impôs-se a pergunta, não transformar nossos comentários em resenhas, nossas querelas em debates abertos, nossos arrazoados em cursos? Que se juntem a nós aqueles que, como nós, interessam-se pelo fantástico, pelo terrível e pelo horrendo no cinema, na literatura, nas artes e na cultura pop. Que as nossas noites de conversa e nosso círculo de amigos se expanda e, nessa expansão, modifique-se de maneira construtiva, fundando um espaço no qual nos sintamos à vontade para conversar mais ou menos a sério sobre estes nossos objetos de diversão.

Assim sendo, sem mais delongas, dou por publicamente aberto o Instituto Randolph Carter. Em breve aqui teremos novidades de todo o tipo - resenhas de filmes, livros e jogos, anúncios de palestras e cursos, enquetes, discussões de variadas formas, sorteios, entre outras coisas mais. Fiquem atentos e, por favor, puxem seus bancos um pouco mais para perto da fogueira, pois, ao nosso redor, o frio se adensa e as sombras movem-se com obscena rapidez...

Rio de Janeiro, abril de 2015
Alfredo Cruz

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